terça-feira, 10 de novembro de 2015

Em meio à crise, bancada ruralista ensaia novo golpe ao brasileiro

Projeto de lei avança no Congresso e pode disseminar sementes propositalmente estéreis produzidas por multinacionais
 
por Sue Branford* 

Grupos de lobby costumam se aproveitar de governos enfraquecidos, e o Brasil não é exceção. Em meio à atual crise política, a bancada ruralista no Congresso se movimenta para aprovar um projeto de lei que modificaria a Lei de Biossegurança. Se aprovado, o PL 1117 fará do Brasil o primeiro país no mundo a legislar em favor do cultivo comercial de plantas propositalmente estéreis, afrouxando a proibição às chamadas sementes Terminator.
Ambientalistas acreditam que o PL, hoje avançando no Congresso com pouca discussão, representa uma das maiores ameaças de todos os tempos à biodiversidade brasileira.
A intenção da bancada ruralista não é nova. Desde a aprovação da Lei de Biossegurança em 2005 esses parlamentares tentam liberar o cultivo de plantas Terminator. A diferença desta terceira tentativa é que nunca as chances de aprovação foram tão grandes.
O filho da ministra de Agricultura, Kátia Abreu, Irajá Abreu (PSD-TO) apresentou o primeiro projeto de lei em 2005 e hoje comanda a Comissão de Agricultura da Câmara dos Deputados. É nesta comissão que Alceu Moreira (PMDB-RS) apresentou o novo texto.
Gerson Teixeira, especialista em desenvolvimento agrícola e crítico da iniciativa, vê poucas chances de obstruir a aprovação: “a bancada ruralista tem um céu de brigadeiro à sua frente”.
Muito parecido com os dois anteriores, o novo PL reduz a proibição das Tecnologias Genéticas de Restrições de Uso, as GURTs, comumente chamadas de Terminator. Tratam-se de sementes transgênicas modificadas para se tornarem estéreis a partir da segunda geração.
O projeto libera essas sementes nos casos de “plantas biorreatoras” ou plantas que possam ser “multiplicadas vegetativamente”. Plantas biorreatoras incluem qualquer planta modificada geneticamente para uso industrial -- por exemplo, para a indústria farmacêutica ou para a produção de biocombustíveis.
Plantas “multiplicadas vegetativamente” são aquelas que se reproduzem assexualmente. Essas exceções irão permitir o uso de espécies estéreis no cultivo de algumas das lavouras principais no Brasil, como cana-de-açúcar e eucalipto.
As sementes seriam também liberadas para o cultivo de plantas consideradas “benéficas para a biossegurança”. Essa linguagem vaga introduz outra brecha interessante aos produtores das sementes transgênicas. Caberia a Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio), onde a bancada ruralista goza de boa influência, a decisão sobre o que é “benéfico para a biossegurança”.

domingo, 8 de novembro de 2015

Concurso TRE-PE 2015: Saiu edital para nível médio/técnico; Inicial de R$ 6.224,79


Um dos órgãos mais almejados pelos concurseiros do nordeste do país, o Tribunal Regional Eleitoral de Pernambuco (Concurso TRE-PE 2015), publicou noDiário Oficial da União desta sexta-feira, 06/11, o edital de abertura de seu concurso público para preencher oportunidades de técnico judiciário (nível médio/técnico) para o seu quadro de pessoal.  São oferecidas 5 vagas imediatas, além da formação de cadastro de reserva, que deverá ser utilizado durante o prazo de validade do certame, que é de 2 anos, podendo dobrar. Há reserva de vagas para negros e pessoas com deficiência. 
A oferta contempla os cargos de Técnico Judiciário – Área: Apoio Especializado – Especialidades: Operação de Computadores e Programação de Sistemas, que requerem nível médio, acrescido de curso técnico na área. Um dos motivos para o concurso TRE-PE 2015 ser um dos mais almejados  é a excelente remuneração, que atualmente é de R$ 6.224,79, já somados o vencimento-base, a Gratificação de Atividade Judiciária (GAJ), a Vantagem Pecuniária Individual (VPI) e o auxílio-alimentação. Além dos atrativos valores, a conquista da estabilidade também é outro incentivo aos candidatos, já que a contratação é pelo regime estatutário. Apesar do número de vagas aparentemente reduzido, o tribunal tem tradição de empossar um número de aprovados muito maior do o inicialmente oferecido, possibilitando mais convocações durante a validade do concurso.
Os interessados poderão se inscrever a partir das 10h do dia 13 de novembro às 23h59 do dia 30 de novembro de 2015. Para tanto, deverão acessar o site do organizador, o Cespe/UnB, e preencher o formulário. Para efetivar a inscrição, o candidato deverá efetuar a quitação da taxa, de R$ 65,00, por intermédio de Guia de Recolhimento da União (GRU), exclusivamente no Banco do Brasil, e correspondentes bancários, incluindo o Banco Postal.  O pagamento da taxa de inscrição deverá ser efetuado até o dia 14 de dezembro de 2015.
A novidade para este concurso está nas provas objetivas, que não seguirão o padrão Cespe, sendo composta por 60 questões de múltipla escolha, com cinco opções (A, B ,C ,D, E). Haverá ainda aplicação de prova de estudo de caso para as áreas especializadas de técnico e analista. Para a área administrativa dos cargos de técnico e analista será aplicada uma prova discursiva/redação. Os exames serão aplicados no dia 28 de fevereiro de 2016, no turno da tarde, somente em Recife/PE, contendo 3h30min.

Detalhes:

  • ConcursoTribunal Regional Eleitoral de Pernambuco (Concurso TRE-PE 2015)
  • Banca organizadora: Cebraspe (Cespe/UnB)
  • Cargos: Técnico Judiciário
  • Escolaridade: Nível médio/técnico
  • Estado: Pernambuco
  • Número de vagas: 5 + CR
  • Remuneração: Até R$ 6,2 mil
  • Inscrições: Entre 13 de novembro de 2015 e  30 de novembro de 2015
  • Taxa: R$ 65
  • Data da prova: 28 de fevereiro de 2016 

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

Dom Quixote, o aniversário do maior clássico, por Urariano Mota


O mundo culto celebra neste 2015 os 400 anos da publicação da segunda parte do  Dom Quixote. Na Wikipédia, o resumo das simplificações na internet, se escreve:
“O Dom Quixote é considerado a grande criação de Cervantes. O livro é um dos primeiros das línguas europeias modernas e é considerado por muitos o expoente máximo da literatura espanhola”.
É muita modéstia para um dos maiores gênios que já houve, porque a sua obra-prima é, pelo menos, o expoente de toda literatura moderna.
Para esse aniversário, lembrou a jornalista Sylvia Colombo:
“Esta segunda parte, que se celebra agora, traz a particularidade de levantar questões em torno do conceito de “autor” e “personagem”, assim como sobre o significado a autoria naqueles tempos em que releituras e apropriações eram tão comuns. É preciso lembrar que Cervantes não tinha intenção de escrever esse segundo volume do ‘Quixote’ até que o sucesso do primeiro provocasse uma enxurrada de obras apócrifas protagonizadas por seu herói. Quando veio à tona a de um Alonso Fernández de Avellaneda, publicada em 1614, fazendo imenso sucesso, Cervantes se incomodou e contra-atacou com a sua versão da continuação das aventuras do cavaleiro. Nela, denunciava de maneira irônica a versão apócrifa dentro da própria narrativa. A Espanha que surge nessa segunda parte também já é uma Espanha diferente, menos rural e migrando para as cidades.”
E aqui eu cito o maior criador da literatura que já houve, quando ele faz o seu personagem criticar a falsificação do Dom Quixote:
“... seu dia de São Martinho há de chegar, como o chega a todo porco, pois as histórias inventadas tanto têm de boas e deleitosas quanto mais se aproximam da verdade ou de sua semelhança; e as verídicas, quanto mais verdadeiras, melhores são”. Que belo pensamento e lição literária, que alcança todas as falsificações literárias até hoje, em escritores vazios de experiência mas cheios da pretensão de possuírem uma fantasia imensa. As histórias inventadas são boas quanto mais próximas forem da verdade. 
Mas espero que por favor se evitem, no grande aniversário da segunda parte do Dom Quixote, as linhas de Cervantes recontadas, um crime não faz muito cometido por Ferreira Gullar. Como declarou o poeta adaptador  ao Estadão: “Os diálogos longos e as descrições foram enxugadas”. Isso lembra mais um copidesque na velha redação do jornal. Brincadeira. A pretexto de um didatismo que pressupõe incapacidades, penso que não se deve adaptar um clássico para versões em  quadrinhos ou leituras mais simplificadas. Será o mesmo que furtar uma riqueza, na vã presunção de que um adolescente não entenda a imensa diversão que é ler Cervantes. E teremos um crime de falsificação, enfim. Todo jovem que ler essa adaptação pensará que conhece o Dom Quixote
No original de Cervantes, por exemplo, está escrito:
“y más cuando llegaba a leer aquellos requiebros y cartas de desafíos,
donde en muchas partes hablaba escrito: ‘La razón de la sinrazón que a mi razón se hace, de tal manera mi razón enflaquece, que con razón me quejo de la vuestra fermosura’. Y también cuando leía: ‘Los altos cielos que de vuestra divinidad divinamente con las estrellas os fortifican y os hacen merecedora del merecimiento que merece la vuestra grandeza’. Con estas razones perdía el pobre caballero el juicio. .”
Mas em Ferreira Gullar para o mesmo trecho:
“Encantado com a clareza da prosa e os volteios do estilo, o pobre cavaleiro foi perdendo o juízo”.
Viram? Perderam-se a graça e a ironia magnífica de Cervantes.
E aqui lembro o que observei uma vez sobre as adaptações de Machado de Assis para jovens: adaptar um clássico é o mesmo que esconder dos leitores o melhor do escritor, porque não se acredita que um adolescente seja tão inteligente quanto o indivíduo que adapta. Imaginem, é exatamente o contrário. Note-se que o problema não é só de forma, de linguagem, dos dribles, firulas e recursos de linguagem, é da visão de mundo enformada nessa prosa, inseparável.
Quem assim age é semelhante ao personagem da anedota em que Einstein foi solicitado por um repórter, que insistente pedia A Teoria da Relatividade mais palatável. O paciente cientista se pôs então a explicar a sua teoria em palavras mais simples, recorrendo a imagens do cotidiano. E perguntava:
– Entendeu?
E o repórter respondia:
– Doutor Einstein, eu, sim. Mas os leitores… não haverá um modo mais simples na Relatividade? 
E o cientista voltava com novos recursos de imagens, para perguntar depois de bom tempo:
– Entendeu?
E o repórter, finalmente satisfeito:
– Sim, agora, sim.
E o grande Einstein desalentado:
– É, mas agora já não é a Teoria da Relatividade. 
Ou seja, o Dom Quixote recontado pode ser tudo, mas já não será o Dom Quixote. Espero que a celebração entre nós se dê pelo original, que é impagável.

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